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Entrevista com o Rev. Frank Chikane
Para os leitores compreenderem melhor esta entrevista, faz-se necessário uma breve introdução sobre o nosso entrevistado.
O Rev. Frank Chikane é o atual presidente da Apostolic Faith Mission International (Missão Fé Apostólica Internacional). Foi Secretário Geral do Conselho de Igrejas Cristãs da África do Sul e um dos lideres de igrejas envolvidas na luta contra o apartheid nos anos 80. Quando Nelson Mandela assumiu o governo da África do Sul convidou o Rev. Frank Chikane para ser o Diretor de Gabinete da Presidência, função que exerceu também durante os dois mandatos do ex-presidente Thabo Mbeki.
PRA. ELIANE - FALE AOS NOSSOS LEITORES ACERCA DO REV. FRANK CHIKANE.
REV. CHIKANE -Eu nasci e cresci dentro da Missão Fé Apostólica. Nasci, é claro, é força de expressão.
Meu pai era pastor. Quando fui para a Escola Secundária passei a participar do Movimento de Estudantes Cristãos e já nessa época havia muita contradição. Para eles, o Cristianismo era coisa de branco, que era utilizado para subjugar os negros. Eles percebiam isso na medida em que parecia que a igreja trocava Bíblias por terra. Agora os negros têm a Bíblia, mas não tem a terra. Muitos achavam que se você fosse um estudante cristão, então você era um não-branco com lavagem cerebral. Quando eles chamavam alguém de “não-branco” isso era uma crítica muito negativa. O movimento da consciência negra estava começando.
PRA. ELIANE - COMO FOI ESSA RELAÇÃO DE UM ESTUDANTE CRISTÃO COM OS MOVIMENTOS ANTI-APARTHEID?
REV. CHIKANE - Eu tive que começar. Reli as Escrituras e reinterpretei a fé Cristã de maneira contrária a que nos era apresentada. Quando fui à Universidade do Norte da África, já tinha uma visão crítica das práticas cristãs, dos cristãos negros. Nós desafiamos os estudantes cristãos que estavam reclamando de perseguição porque o movimento estudantil havia banido o cristianismo, mas, dali até ’73, nós tínhamos inserido o movimento estudantil no centro da vida universitária novamente. Fizemos desafios com os assuntos da atualidade e respondemos às perguntas das pessoas da consciência negra com relação à nossa fé e o papel dos cristãos na situação da opressão. Obviamente que comecei a ter problemas na universidade.
PRA. ELIANE - O QUE CURSOU NA UNIVERSIDADE?
REV. CHIKANE - Estava me graduando em física e matemática aplicada. Alguns dos pastores da minha igreja tinham dito, “Você tem que se tornar um pastor”. E eu respondia: “Bem, eu não sei por que, não estou indo tão bem na matemática e na física. Não posso relacionar meu chamado pastoral com meu tipo de inclinação na escola. Eu gostaria de ir à Universidade e fazer Ciências. Eu creio que Deus tem uma razão para me habilitar nessa área.
PRA. ELIANE - QUAL A IMPORTÂNCIA DESSES ANOS NA UNIVERSIDADE?
REV. CHIKANE - Mais importante do que minha graduação em Ciências Naturais, foi o fato de ter sido exposto à mais radical das comunidades negras naquele momento e ter sido desafiado a “prestar contas” de minha fé.
PRA. ELIANE - COMO SE DESENVOLVEU SEU CHAMADO PASTORAL?
REV. CHIKANE - Por causa da enormidade dos problemas que enfrentávamos na África do Sul, comecei a sentir que era importante me comprometer com o ministério. E eu estava resistindo ao chamado. Mas tornou-se claro que a grandiosidade do problema na África do Sul precisava de um esforço concentrado para testemunhar o Evangelho na nossa situação de conflito. Então, antes de sair da Universidade, me matriculei na Faculdade de minha igreja e comecei fazendo um curso de treinamento por correspondência. Passei a dedicar meu tempo integral à igreja em 1976 quando já tinha feito metade do curso. Fui colocado em uma congregação e fui pastor de 1976 a 1981.
PRA. ELIANE - COMO INICIARAM OS PROBLEMAS COM O REGIME DA ÉPOCA? CHEGOU A SER PRESO? POR QUE?
REV. CHIKANE - Após cerca de seis meses e meio na minha congregação, fui detido por sete dias. Os líderes da igreja começaram a fazer perguntas. Depois, nos próximos seis meses fui detido novamente, e isto durou sete meses. A liderança da igreja chegou a conclusão que minha detenção era embaraçosa para a igreja. (Se alguém era detido pela lei anti-terrorismo, o cidadão branco comum vê você como uma pessoa terrível.)
A primeira detenção foi puramente por causa do meu trabalho pastoral. Eles estavam procurando meu irmão mais novo e seu amigo, que pertencia à Congregação do meu pai no Soweto. Eles vieram à mim porque acreditavam que meu irmão poderia estar escondido comigo. Então descobri que os pais do rapaz haviam sido detidos. A irmã mais velha tinha quinze anos e havia outros cinco filhos. A primeira coisa que me ocorreu foi ir até a família e me certificar de como estavam as crianças. Peguei um taxi e fui ao Soweto. A polícia estava vigiando a casa para deter o mais novo. Então eu cheguei e fui colocado diretamente nas mãos deles. O capitão me disse, “Bem, nós te deixamos por volta de 16h30 ou 17h e você já está aqui, às 19h. Você deve saber o que está acontecendo.”
Este é o fim da história. Dentro de uma hora eu estava na delegacia de polícia.
PRA. ELIANE - O QUE ACONTECEU?
REV. CHIKANE - Eu não conseguia caminhar porque eles me bateram muito. Eles me agrediram severamente. Havia sangue na sala inteira de interrogação. Eles me fizeram limpar meu próprio sangue. Tentaram esmagar meus testículos e fizeram todo tipo de coisas. Foi uma experiência horrível. Quando fui solto, após sete dias, eu tinha perdido a consciência completamente. Alguém me acompanhou a um táxi e pediu para o taxista me levar para casa, pois eu não sabia exatamente onde estava.
PRA. ELIANE - CHEGOU A SER DETIDO OUTRAS VEZES?
REV. CHIKANE - A segunda vez eu fui detido porque ajudei a família de detentos. Eu instruí advogados a encontrarem o paradeiro de pessoas que tinham desaparecido. Os advogados diziam, “Fomos instruídos pelo Pastor Chikane para investigar e coisa e tal”, porque eles não têm um Estado que os instrua. E às vezes os parentes estavam longe demais para poderem assinar os documentos. Então eu senti que tinha que me responsabilizar e fazer isso. Eles me detiveram e me torturam severamente por seis semanas.
PRA. ELIANE - FOI DESTA VEZ QUE A PESSOA ENCARREGADA DE TORTURÁ-LO ERA UM DIÁCONO BRANCO DA SUA PRÓPRIA IGREJA?
REV. CHIKANE - Exatamente. Um diácono branco da minha igreja supervisionou a tortura. Ele veio durante as horas oficiais e três equipes alternavam turnos para trabalhar em mim.
PRA. ELIANE - VOCÊ CHEGOU A PERGUNTAR AO DIÁCONO COMO ELE, QUE ERA CRENTE NA BÍBLIA, CONSERVADOR, PENTECOSTAL EVANGÉLICO, PODERIA FAZER AQUILO COM UM IRMÃO EM CRISTO?
REV. CHIKANE - Sim, eu falei com ele. Ele admitiu que pertencia à minha igreja, que era Pentecostal. Ele estava muito bravo comigo. Ele disse, “Eu sou um Pentecostal. Eu pertenço à mesma igreja. Eu sou um diácono lá, mas eu vou deixar que você seja torturado.” Ele achava que eu colocava em risco a segurança do Estado e que precisava sofrer aquilo. Ele pertencia à Congregação do famoso Pr. Duplessis.
PRA. ELIANE - O SENHOR QUE TRABALHOU COMO DIRETOR DE GABINETE DA PRESIDÊNCIA, COMO FOI ESSA EXPERIÊNCIA?
REV. CHIKANE - Mandela é um herói nacional, um dos maiores lideres do século. Eu o conheci pela luta contra o apartheid e quando fui presidente do Conselho de Igrejas, apoiei sua família como pastor. Foi uma honra ser convidado a dirigir o Gabinete da Presidência, mas uma grande responsabilidade pois não participei como membro de um partido ou organização. Também trabalhei nos dois mandatos do Presidente Thabo Mbeki na mesma posição. Tinha de trabalhar com a máxima isenção possível.
PRA. ELIANE - COMO EXPLICAR O NASCIMENTO DE UM LÍDER DA ESTATURA DE NELSON MANDELA?
REV. CHIKANE - Os desafios produzem homens extraordinários.
A resistência ao mais brutal sistema de opressão que já existiu criou Nelson Mandela. O momento histórico o desafiou a tomar posições e isso o levou a se tornar o herói que se tornou.
PRA. ELIANE - UMA MENSAGEM PARA A NOVA GERAÇÃO.
REV. CHIKANE - As decisões que tomarmos agora irão produzir grande impacto no futuro. Esse impacto será sentido por nossos filhos e pelas futuras gerações. Portanto, que saibamos assumir a nossa fé sem nos importarmos com o preço que teremos que pagar neste momento.
PRA. ELIANE - KE A LEBOGA (OBRIGADO EM NORTHERN SOTHO)

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